Exposição Bosque das Artes
ExposiçãoBosque das Artes
Uma das artistas conceituais mais relevantes do século XX, Anna Bella Geiger (Rio de Janeiro, 1933) é uma figura central para a compreensão da arte contemporânea no Brasil e no mundo. Sua obra desarticula as fronteiras entre corpo, linguagem, território e política, construindo uma investigação contínua sobre o modo como as imagens e os discursos produzem o mundo — e não apenas o representam. Seu pensamento provoca-nos a uma deriva, convida-nos a indagar nossas posições no mundo.
Símbolo da "Cidade Maravilhosa", a quase 400 metros acima do nível do mar, o Pão de Açúcar, moldado ao longo de quase 600 milhões de anos, uma das paisagens mais reconhecidas do mundo, abriga uma rara reserva de Mata Atlântica — território onde se situa o Bosque das Artes. É aqui que o Projeto Maravilha: Ícones na paisagem comissiona artistas brasileiros, de incontestável trajetória, a responderem ao encontro entre natureza e cultura, arte e ecologia.
Desde os anos 1950, Geiger transforma o mapa em pensamento e a superfície em campo simbólico. Em Typus Terra Incognita, ela recria o relevo como forma poética e política, aproximando a arte das urgências planetárias. O território, aqui, não é limite, mas um corpo vivo, indeterminado — atravessado por memórias, disputas e imaginação. A obra, concebida como uma gaveta monumental, contém uma projeção cartográfica em aço corten. Entre suas camadas, duas gravuras históricas — Local da ação, 1500-2006 e Na outra margem del rio Amazonas — e fragmentos do filme Passagens 2 (1974) ampliam o sentido da obra: corpo e território se tornam uma mesma matéria. O título em latim, Typus Terra Incognita, revisita os mapas coloniais, mas os devolve como ficção crítica — convite a redescobrir o mistério e a dúvida diante do mundo.
Iniciado com Carlos Vergara, o Projeto Maravilha reafirma seu compromisso com o pensamento ecológico e com a criação como força de convivência — uma solidariedade interespécies. Neutralizando integralmente sua emissão de carbono, o projeto renova o diálogo em torno do patrimônio e subverte a metáfora ao colaborar ativamente para a manutenção e a restauração da paisagem, inclusive para seu mapeamento e difusão dessas informações. Do alto do Pão de Açúcar, corpo monumental que guarda o exuberante relevo desta cidade, temos o prazer de propor nomes incontornáveis da arte brasileira. Com esperança, possibilitamos ao cartão-postal um novo sentido, inovador: perceber e contribuir para um país em permanente reinvenção.
Ulisses Carrilho – Curador

Typus Terra Incognita, 2026
Na obra da artista, gavetas — assim como mapas — aparecem como dispositivos que expõem regimes de poder. Ao tensionar os limites da representação, a artista apropria-se da forma de uma gaveta associada a arquivos e passados históricos, apresentando-a totalmente aberta e inscrita por uma cartografia do mundo que jamais se pretende neutra. Entre as gravuras que acompanham a obra, uma destaca os afluentes do Rio Amazonas — região que permanece no centro das disputas internacionais sobre clima e que reposiciona o Brasil na engrenagem global dessas urgências —, enquanto outra alude às fronteiras movediças que, ao longo da história, deram forma a diferentes desenhos territoriais.
Essa referência à instabilidade dos contornos faz emergir a própria condição política da cartografia: toda fronteira é um desenho e, portanto, uma construção que revela intenções, acordos e disputas. Acompanham estas gravuras imagens extraídas de um de seus vídeos paradigmáticos, que investem uma potência crítica ao deslocamento, a partir da presença de um corpo feminino: a própria artista. O resultado é um objeto híbrido e monumental que convoca o público a reconsiderar seu próprio lugar — não apenas na geografia, mas também na história —, articulando corpo, espaço e narrativa. Pioneira da arte conceitual no Brasil, Geiger mobiliza múltiplas linguagens para construir esta forma expandida de mapa e de memória.
Escultura – Aço corten, acrílico, chapa galvanizada, impressão digital

VídeoArte
Anna Bella Geiger foi uma das primeiras artistas brasileiras a incorporar o vídeo como método conceitual de investigação — não apenas como suporte técnico, mas como gesto crítico. Em seus experimentos dos anos 1970, ela usa a câmera para problematizar identidade, tempo e espaço, numa interseção entre corpo, memória e política.
Suas obras Passagens II (1974), Declaração em retrato II (1976) e Mapas elementares II (1977) são paradigmas desse momento radical. Em Passagens II, Geiger caminha repetidamente por escadarias, explorando a noção de percurso, tempo e repetição como metáfora existencial. Em Declaração em retrato II, ela elabora uma autorrepresentação contundente, articulando uma crítica à posição do artista dentro da cena brasileira e internacional. Já em Mapas elementares II, ela desenha mapas em tempo real, ironizando a rigidez das fronteiras geopolíticas e propondo uma cartografia fluida, aberta à construção e à disputa de sentidos.
Por meio dessas videoperformances, Anna Bella constrói um arquivo crítico que dialoga com seu trabalho em gravura, cartografia e instalação, estabelecendo relações entre imagem, poder e território. Sua prática pioneira fundamenta-se em uma estética de sobriedade técnica, ritmo contido e conceito rigoroso — modos de fazer que a posicionam como figura central da videoarte conceitual no Brasil.
Ulisses Carrilho – Curador

Passagens II, 1974
Anna Bella Geiger Vídeo, P&B, som. Duração: aprox. 3'30''. Suporte original: videotape analógico
Realizado em meio às primeiras experimentações com vídeo no Brasil, Passagens II investiga deslocamento, repetição e estrutura, utilizando o próprio gesto de caminhar como método conceitual.

Declaração em Retrato II, 1976
Anna Bella Geiger Vídeo, P&B, som. Duração: aprox. 6'. Suporte original: videotape analógico
Nesta obra, Geiger investe na autorrepresentação como campo político e conceitual, ativando o vídeo como ferramenta de reflexão crítica sobre identidade e posicionamento do sujeito.

Mapas Elementares II, 1977
Anna Bella Geiger Vídeo, P&B, som. Duração: aprox. 3'30''. Suporte original: videotape analógico
Parte de sua pesquisa sobre cartografia e território, Mapas elementares II tensiona a suposta neutralidade dos mapas ao dramatizar, em tempo real, o ato de desenhar fronteiras.
Carlos Vergara
Carlos Vergara inscreve-se em uma linhagem de artistas que fazem da caminhada e da exploração não apenas uma prática estética, mas também uma ética de engajamento com o mundo. Suas incursões por trilhas, matas e florestas revelam uma busca incessante por compreender e registrar as marcas deixadas pelo tempo e pela cultura nos mais diversos ambientes. Com o corpo em movimento, ele traça novos mapas e reinterpreta antigos caminhos, numa jornada que é tanto física quanto espiritual. Suas monotipias são exemplo de trabalhos que capturam esse encontro direto com a paisagem, numa forma de marcar o terreno onde a natureza e a história se entrelaçam.
Essa prática, que se devota à experiência e mergulha o artista no mundo de forma tão visceral, também convida o espectador a assumir um papel ativo na experiência estética. Vergara não oferece apenas obras para serem contempladas, mas lentes através das quais se pode redescobrir o ambiente ao redor. O corpo do artista, em movimento, torna-se uma extensão do corpo do espectador, possibilitando novas formas de ver e entender o mundo. Ao adentrar esses espaços e propor novas narrativas, Vergara nos lembra da importância de estar presente, de se inscrever no tempo e no espaço, e de participar ativamente na construção de sentido.
Ulisses Carrilho – Curador

A IDADE DA PEDRA
Em A Idade da Pedra, Vergara alude ao tempo aproximado do Gnaisse Facoidal: em vez de cogitar o extraordinário relevo carioca apenas no tempo de erosão da pedra, o artista decide remontar aos 500-600 milhões de anos, aproximadamente, em que o magma do interior do planeta se resfriou para dar origem à matéria mineral que chamamos de “rocha”. Com mais este código matemático, um número escrito por extenso, o artista aponta para a diminuta escala temporal da vida humana. Ao fazer coexistir o tempo da biografia e o tempo do Pão de Açúcar, Carlos Vergara demonstra sua sensível atenção para a instabilidade das formas e a incontornável passagem do tempo.
Fabricado em tubo de aço corten de 3/8” de diâmetro termomoldado – Montado solda TIG/MIG

Pauta Musical
Pauta Musical nasce no ateliê do artista, em Santa Teresa e, agora, no Projeto Maravilha, ganha escala e dimensão pública. Em aço moldado a calor, as linhas paralelas sugerem a estrutura de uma partitura, com a presença de uma clave de sol: símbolo musical usado para a grande maioria dos instrumentos. Ao pousar sobre as linhas, os pássaros tornam-se as notas de uma composição efêmera: de maneira poética, o artista instaura um espaço de potencial meditativo, que protesta contra a aceleração. Ao passo que tal estrutura se faz às vezes de local de pouso das aves, torna-se um dispositivo visual que sublinha a beleza sonora do canto dos pássaros.
Fabricado em tubo de aço corten de 3/8” de diâmetro termomoldado – Montado solda TIG/MIG