Exposição Um Corpo no Espaço
Anna Bella Geiger: Um corpo no espaço
Anna Bella Geiger é uma artista pioneira: ao longo de sua trajetória, que soma mais de sete décadas de inventividade, promove uma profunda discussão da ideia de espaço, em suas dimensões física e poética, real e simbólica. Para Geiger, representações não são neutras: como percebemos em Typus Terra Incognita, comissionada pelo Projeto Maravilha, mapas e arquivos são dispositivos de poder. De modo concomitante, a artista recorreu à aparição de seu próprio corpo em diferentes meios. Tal procedimento não se impõe de maneira autobiográfica, mas como método de investigação conceitual e formal — aludindo não apenas à própria Anna Bella Geiger, mas à sua posição enquanto artista, cidadã, sujeito: um corpo situado, um corpo no espaço.
É uma presença feminina, atuando em um campo ainda rigidamente marcado por hierarquias de gênero, que entra em cena: não como figura submetida à narrativa dominante, mas como agente que é capaz de reorganizar os modos de ver. Aproximar distâncias, denunciar absurdos, deslocar sentidos, sublinhar repetições. Para expandir a ideia de espaço, selecionamos dois projetos: Situações Limite — onde vemos o próprio Pão de Açúcar figurado, com a poética lembrança de que "A imaginação é um ato de liberdade" — e "Rio de Janeiro como centro cultural do mundo", em que a artista reorganiza nosso imaginário ao tomar a América do Sul, o Brasil e o Rio de Janeiro como eixo — ainda nos anos 1970, muito antes das discussões em torno da globalização e do Sul global se imporem no debate internacional.
Oito imagens atuam como índices dos debates levados a cabo pela artista: seu corpo aparece e reaparece, em painéis próximos à escala humana, que propositadamente se apresentam sobre a paisagem carioca — ao ar livre, aqui podemos abrir mão das paredes protetoras dos museus. Muito embora tenhamos escolhido falar sobre o contexto dessas imagens, nossa intenção aqui é operar respeitando a ética da artista: mais além da representação e da explicação, confiar no poder de provocação que carrega consigo a experiência artística. Anna Bella Geiger: Um corpo no espaço busca sublinhar o caráter inovador da pesquisa que a artista realiza desde os anos 1950, como um dos nomes incontornáveis da arte conceitual internacional, definidora da arte brasileira.
Ulisses Carrilho – Curador
Projeto Maravilha
Glossário
Anna Bella Geiger inaugura, na arte brasileira, um campo de experimentação onde o mapa deixa de ser mera representação para transformar-se em dispositivo crítico, e o corpo, em território cognitivo, político e poético. Desde os anos 1950, sua produção atravessa linguagens — gravura, pintura, objeto, vídeo, fotografia, instalação, ensino —, fazendo de cada uma delas uma arena de disputa simbólica. Em diálogo com debates internacionais do conceitualismo e antecipando discussões do Sul global, Geiger expõe como os regimes de imagem moldam ideologias, geografias e corpos. Sua obra tensiona as fronteiras entre experiência e representação, entre paisagem e política, entre gênero e poder. O Brasil aparece não como categoria fixa, mas como campo de fricção cultural, onde se confrontam colonialidade, ficção nacional e desejo de autoinscrição.
Abstração
Ponto de partida formal e ético de sua trajetória. Da gestualidade inicial dos anos 1950, emerge uma investigação que, longe de celebrar a pureza da forma, expõe a própria linguagem pictórica como campo tensionado por normas de visibilidade e por hierarquias históricas de gênero. A abstração, em Geiger, já anuncia sua crítica aos sistemas de representação.
AlienAlienígena
Brasil nativo/Brasil alienígena, 1976-77
[18 cartões-postais]
Brasil nativo/Brasil alienígena é formado por nove pares de cartões-postais. Cada cartão-postal representando indígenas brasileiros em ações prosaicas é acompanhado por um segundo: neles, a artista reproduz a cena, usando o próprio corpo, suas filhas e amigas, seu espaço doméstico. A artista convoca, assim, uma ética feminista e antirracista do olhar: não se trata de representar “um” corpo, mas de complexificar as condições materiais e simbólicas pelas quais esse corpo ocupa espaço. Sua presença diante da câmera é sempre a negociação entre exposição e recusa: ela aparece, mas nunca como objeto passivo; antes, afirma-se como alguém que manipula o próprio modo de aparecer. Nesse movimento, o corpo funciona como ferramenta conceitual: uma superfície onde se experimentam tensões entre o íntimo e o público, entre o que pode ser visto e o que resiste à captura.
Posando com arco e flecha, a artista expõe a alteridade como categoria política central. Ao encenar um corpo “nativo” que é, ao mesmo tempo, “alienígena”, Geiger desestabiliza estereótipos coloniais sobre identidade brasileira. A imagem evidencia o artifício da representação antropológica e a violência simbólica implicada em reduzir um território a signos folclóricos. O trabalho desloca o olhar: não se trata do “outro” como exotismo, mas da artista revelando a construção desse outro. E ela considera a todos na cena como Lumpens, cidadãos e cidadãs de baixa categoria, sem direito ao voto.
